
Anoitece
Anoitece e meu olhar se volta para o horizonte
onde a luz do crepúsculo doura a mata.
É o momento em que a natureza celebra
o ritual melancólico do anoitecer.
A tristeza da meia~luz se alastra sobre os rios,
árvores e encostas dos morros,
como se um véu se espargisse sobre eles.
As dimensões aprofundam-se;
uma pedra, um galho, parecem ter mais solidez e individualidade.
Tudo passa a ser individual e a adquirir maior profundidade.
O rio brilha lívido e a gênese da vida
parece se desvendar com o murmurar das águas
Tudo silencia, e a tudo invade uma fadiga,
a energia da terra, selvagem, amortece,
numa sombria serenidade.
Meu rosto brilha na perspectiva quase apagada do sol se pondo.
As pessoas também se mostram mudadas, silenciosas,
parecendo fazer parte de entidades sobrenaturais,
e obedecem impulsos que mal se conscientizam em suas mentes.
Os olhares são voltados para dentro e não há mais ódio nos lábios.
O corpo parece se tornar imaculado e as impurezas se desvanecem.
Um tênue raio de lua riscou o céu!
Grossos troncos de árvores se transformam em castelos encantados.
Todos estão fantasiados para a grande festa da noite ...
Anoitece...
do livro Momento Exato - 1974